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[texto: Katia Deutner]

 

Este é um dado que provavelmente você não sabia: quase 22% das companhias no Brasil têm presidentes do sexo feminino. A explicação para isso? Intuição, sensibilidade e compreensão...
 
O poder está cada vez mais nas mãos delas. Os fatos comprovam. De acordo com um levantamento feito pela Catho Online, empresa de classificados de empregos pela internet, no ano passado 21,43% dos cargos mais elevados em uma empresa, como presidentes e CEOs, são ocupados por executivas. Só para comparar, há 12 anos essas mesmas funções tinham apenas 10,39% de presença feminina. Uma mudança e tanto. Mas por que será que isso está acontecendo? Os homens descobriram o potencial das mulheres? “Profissões e funções tidas como exclusivamente masculinas começaram, aos poucos, a ganhar espaço e toques de leveza com a participação, cada vez maior, das mulheres. Não há dúvidas de que a presença feminina está tomando conta do mercado”, avalia a psicanalista Luciana Botelho, especialista em comportamento humano e organizacional da Clarz & Co. Consultoria Global de Estratégia & Comunicação (SP).
 
Qualidades como poder de persuasão, empatia ou o fato de serem assertivas (capacidade de maleabilidade e firmeza em decisões de negócios), flexíveis e dispostas a se expor a mais riscos do que líderes masculinos são conclusões de um estudo da Caliper, Consultoria Global em Gestão Estratégica de Talentos, em parceria com a HSM. “As empresas perceberam que as mulheres têm atributos que podem ser muito úteis no mundo corporativo. E essas características são muito importantes para empresas vencedoras”, completa Carolina Stilhano, gerente da Catho Online.
 
Claro que somente isso não basta para garantir uma vaga no mais alto posto de uma empresa. Estudo, dedicação e inteligência ainda são itens obrigatórios para um bom profissional – e isso independe de sexo. “O profissional deste século, além de ter que administrar as competências técnicas, de gestão de tempo e do conhecimento, deve cumprir outras novas competências, tais como flexibilidade, capacidade de inovar e de administrar as pressões do dia a dia”, argumenta Luciana. E nisso as mulheres têm vantagem. “Elas possuem facilidade em entender a cultura corporativa, as oportunidades de crescimento. Por serem mais cuidadosas e detalhistas, mesclam a percepção e a intuição e costumeiramente desempenham o trabalho com precisão”, complementa a psicanalista.
 

Mudança silenciosa

Desde pequenas, as mulheres ganham bonecas e casinhas para brincar de ser adultas, cuidando de outros seres humanos, aprendendo a organizar uma casa. Sempre foi muito mais comum que a menina ajudasse a mãe nos afazeres domésticos e o menino fosse jogar bola com os amigos. “Crescemos e percebemos que o mundo é muito competitivo. Na escola, depois no trabalho, a mulher continua sendo a pessoa que cuida e faz várias coisas ao mesmo tempo. Somos pessoas não lineares, enquanto os homens são mais objetivos e diretos. E este jogo de cintura faz com que tenhamos mais sensibilidade de perceber quando a equipe pode produzir mais e quando não pode”, analisa Carolina Stilhano.
 
Os avanços femininos levaram meninas que foram educadas para serem mães e donas de casa perfeitas a se tornarem executivas, militantes e profissionais. Mas foi somente com a abertura do mercado para as importações, na década de 90, e a geração de grandes processos de fusão e reestruturação nas empresas que elas deixaram de ser comandadas pelos homens. “Diante dessa nova situação, abre-se espaço para uma nova era, a inserção da mulher nos altos escalões e no meio empresarial brasileiro”, afirma Luciana Botelho.
 

Direitos e deveres iguais

Apesar dos avanços que a participação feminina já teve, ainda há discrepância de salários. De acordo com uma pesquisa salarial, também realizada pela Catho Online, os diretores homens ganham aproximadamente 12% a mais do que as mulheres. Em cargos de gerência, a diferença cai para 10%. Não há uma explicação para que os salários não sejam equiparados – somente o fato de as mulheres estarem começando a se destacar nesse universo prioritariamente masculino.
 
Se o holerite ainda não é o dos sonhos, pelo menos elas estão sendo vistas como melhores líderes. Salvo raras exceções (como Miranda Priestley, no filme O Diabo Veste Prada), os funcionários preferem trabalhar com chefes do sexo feminino. “Elas têm mais facilidade de lidar com pessoas, de extrair o melhor de cada uma e fazer com que elas produzam o máximo, além de prezarem climas mais harmoniosos em uma equipe – o que acaba sendo prazeroso para os liderados”, concorda Carolina.
 
Para ficarem no mesmo patamar, homens e mulheres devem ser competentes e mostrar ao mercado o que podem agregar ao serem contratados pelas empresas. “Não tem nada a ver com o sexo, mas com a atitude. Um profissional precisa demonstrar suas atitudes, seu conhecimento, trabalhar numa concepção de equipe e ganha-ganha. Autodesenvolvimento profissional é a grande sacada. Só chegam ao topo os melhores”, explica a gerente da Catho Online. Esqueça também a velha história de que mulheres casadas e com filhos são um empecilho para as corporações. Outra pesquisa da Catho Online identificou o perfil dos executivos mais procurados e apontou que apenas 9,6% dos contratantes possuem algumas objeções a mulheres com filhos em cargos de liderança. Claro que esse número ainda é grande e que poderia ser bem menor.
 
 
 “Desde pequena queria ser publicitária. Estudei, me empenhei em conseguir o que queria. Fiz colegial técnico em Publicidade e Propaganda, Comunicação Social e MBA em Marketing e Finanças. Ainda adolescente, enfrentei o primeiro desafio: sair de casa e buscar meu sonho. Como morava em São Paulo e na época não havia uma escola para fazer o curso técnico, decidi me mudar para o interior. Toda mudança provoca rupturas, tanto familiares como geográficas. No meu caso, trouxe também amadurecimento. Sorte e competência fizeram com que eu chegasse ao posto de liderança. Trabalhei em empresas totalmente masculinas e com homens acima dos 60 anos. Eu, mulher, com 30 anos. Tive que ir ganhando espaço. Venci com simpatia, jogo de cintura e respeito pelos profissionais. Segui em frente e ganhei colaboradores, amigos e, sim, alguns inimigos profissionais, claro! Não acho que seja um tabu a mulher ser líder, mas causa estranheza e suscita perguntas, como: “E como faz com sua casa, marido e filhos?” Aí respondo: “Da mesma forma como eles fazem!”
Cris Rother, diretora executiva da Nielsen Online, do Ibope, é casada há 12 anos, tem uma filha de um ano e dois meses e dois cachorros. Idade? “Para sair em uma revista? Nem pensar.”
 
 
“Não tive uma carreira linear, mas soube aproveitar oportunidades. Trabalho desde os 15 anos. Comecei como atendente de um banco privado. Na época, não havia caixa eletrônico, as filas eram imensas e eu lidava diretamente com o público. Casei-me cedo, com 21 anos, e aos 22 fui mãe pela primeira vez. Isso atrasou a minha formação. Enquanto adiava a faculdade, procurei fazer cursos técnicos na área em que trabalhava. Só ingressei na faculdade de Administração de Empresas depois do nascimento de meu segundo filho, quando estava com 27 anos. Perdi a conta de quantas reuniões escolares ou festinhas deixei de participar por causa da vida profissional. Meus filhos se acostumaram e cresceram sabendo que a mãe tinha que trabalhar. E não ficaram revoltados por causa disso. Tudo foi muito bem conversado. Precisei de muito foco para conciliar emprego, universidade, filhos e casa. Trabalhei muito, assumi empregos e desafios novos, me tornei profissional liberal quando perdi meus pais. A vida não é totalmente planejada, as coisas acontecem. É preciso acreditar na força e na capacidade que você tem.”

Irani Ugarelli, Diretora de Knowledge, Marketing & Communications, da KPMG no Brasil.

 

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