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Linda, politizada e talentosa, a atriz, que vive a italianinha Agostina, em Passione, está produzindo um filme sobre o universo de travestis e diz que um dia – quem sabe – posará nua para uma revista masculina
Texto Edwin Paladino
Fotos: Priscila Prade
Beleza: Danilo Toscano (First)
Styling: Fernanda Prats / Produção de Moda: Tatiana Sakavicius
Aos 28 anos, a atriz Leandra Leal já é uma veterana na profissão. Ela estreou no teatro aos sete anos de idade e na televisão com oito anos, quando participou do último capítulo da novela Pantanal, da extinta Rede Manchete, na qual sua mãe (a atriz Ângela Leal) também trabalhava. O reconhecimento veio em 1995, com a novela global Explode Coração, de Glória Perez. A partir daí, Leandra só cresceu profissionalmente. Aos 14 anos, quando estreou no cinema, no filme A Ostra e o Vento, de Walter Lima Jr., sua atuação ao lado de Lima Duarte e Fernando Torres rendeu prêmios no Brasil e no exterior, entre eles o de melhor atriz, no Festival de Biarritz, na França.
No teatro, participou do clássico nacional Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, dirigido por Antônio Pedro, em 2002; e da peça Tartufo, dirigida por Tonio Carvalho, em 2003. Em 2005, escreveu, dirigiu e produziu o espetáculo Impressões do meu Quarto, com Bianca Gismonti.
Sua criatividade não para. Como produtora, Leandra Leal já realizou vários shows no teatro de sua família (Teatro Rival), com artistas e grupos como Seu Jorge, Mundo Livre S/A, Los Sebosos Postizos, Cordel do Fogo Encantado, Paula Lima e DJ Dolores.
Atualmente, na telinha, a atriz conquistou seu espaço com a italianinha Agostina, na novela global Passione, de Silvio de Abreu. De onde vem a inspiração para ela interpretar a personagem? De elementos do cinema italiano, misturando humor com drama.
Linda, com um rosto delicado de menina, Leandra Leal é uma atriz politizada, de personalidade forte, que sabe curtir e observar seu tempo, e não tem medo de mostrar suas opiniões. Gosta de dançar, divertir-se, trabalhar em equipe e curtir muito seus amigos. “Sou filha única e tenho consciência da solidão, por isso gosto de muitas pessoas. O mundo de mãos dadas é muito melhor”, brinca.
O que a despertou para seguir a carreira de atriz, já que você começou a atuar ainda criança (Leandra estreou na televisão em Pantanal, na Rede Manchete, aos oito anos de idade)?
Cresci no meio de artistas. Minha mãe é atriz (Ângela Leal), meu avô trabalha com arte (Américo Leal, produtor cultural) e minha casa sempre estava cheia de atores, produtores, diretores... Acho que tudo rolou naturalmente, porque estava tudo ali do meu lado, no ambiente em que eu vivia... Lembro-me do Dias Gomes em casa, do Grande Otelo, da Dercy Gonçalves, do Luiz Armando Queiroz....
Só os grandes atores e diretores do Brasil...
Sim, e eu gostava disso, era tudo muito divertido... E isso me influenciou muito. Tanto que fui estudar teatro em escolas como a Laura Alvim e o Teatro Rival, ambas no Rio do Janeiro.
Você, ao lado dos atores Selton Mello e Daniel Oliveira, é considerada umas das melhores atrizes de sua geração, já ganhou prêmios e tem uma carreira sólida. Como você analisa seu trabalho?
Você falou do Selton, e eu gosto dele porque ele é um cara que faz, que realiza as coisas, movimenta-se... E eu também gosto disso, de realizar, de fazer um monte de coisas ao mesmo tempo. Sou criativa, gosto de realizar... Principalmente como atriz. Eu acho que quanto mais gente bacana tiver no mundo, melhor.
E como é conciliar a novela e sua produtora, a Daza?
Está uma correria tudo isso, não tenho tempo mais para nada. Faço terapia, mas nunca tenho tempo. Só vou à academia porque lá o horário é flexível. Eu gosto de movimento, de trabalhar com um monte de gente, de ver outras coisas. Recentemente, participei da curadoria de um festival de cinema, no Rio, com adaptações literárias para o cinema. Adorei!
Trabalhar em grupo pode ter relação com o fato de você ser filha única?
Todo filho único tem a consciência da solidão necessária. E eu também. Talvez por isso, gosto de trabalhar em grupo. Minha casa vive cheia de amigos. Eu gosto. Quando morei em São Paulo, era um entra e saí de gente toda hora. Gosto de amigos, gosto da vida em comunidade. A vida de mãos dadas é bem melhor!
E aquelas reuniões de domingo com a família reunida, você acha que acabaram?
Não, isso não acabou. Muitas pessoas ainda fazem isso. O que mudou foi a estrutura familiar, o mundo. Antes, a mulher ficava com o marido, era difícil o casal separar-se. Hoje a família está diversificada. A mãe tem um filho com um homem de um casamento, que tem um filho com outra, que tem um irmão de outro casamento. Os processos são complexos.
Você acha que a internet afasta ou aproxima as pessoas?
A internet está aí para todo mundo, é um ferramenta maravilhosa de informação, recebemos milhões de informações, mas temos de saber filtrá-las... Senão ficamos loucos! Eu não sou nostálgica, gosto do hoje! Cada um tem de saber lidar com a tecnologia, com a internet.
Em Páginas da Vida, em 2007, você foi criticada por expor sua insatisfação com a novela em seu blog. Você foi um pouco bode expiatório da situação?
(Breve silêncio.) Esse é um assunto já resolvido, não tinha nada a ver, fizeram um estardalhaço pra uma coisa mínima, foi meio isso que você falou... E nem gosto de falar muito porque já se resolveu, faz tanto tempo, não tenho o que falar.
Você gosta de interpretar personagens difíceis? Qual é a complexidade da Agostina, de Passione?
Ela é supertrabalhosa para mim, por ser italiana, ter sotaque, ser doce sem ser frágil, ela é bem forte e ao mesmo tempo passional. Mas eu gosto de desafios.
Por que você recusou o convite de posar nua para a Playboy, apesar de ter filmado sem roupa em Nome Próprio (2007)? Por falar nesse filme, considera essa personagem uma das mais complexas de sua carreira?
Sem dúvida, a Camila, de Nome Próprio, foi uma personagem muito complexa de se realizar. Mas acho que posar nua para uma revista não tem nada a ver com o meu trabalho como atriz. Poderei até fazer, quem sabe no futuro; faria por mil motivos que não têm a ver com a minha profissão, com dinheiro ou vaidade. Faria, talvez, para ir contra a caretice reinante no mundo de hoje ou ainda levantar outra imagem a meu respeito.
Você está produzindo um filme sobre travestis. De onde veio seu interesse por esse universo?
Minha mãe reeditou o Divinas Divas, que é um espetáculo musical antigo do Brasil. E fiquei fascinada com o universo das travestis. A Rogéria, a Jane di Castro, entre outras, estão no projeto. Elas são uma geração de vanguarda, numa época em que era muito mais difícil assumir-se como travesti do que é hoje. Não era só colocar silicone no peito e pronto, nos anos 1960. Elas fazem parte da luta homossexual no Brasil, da libertação. É o travesti como grande artista, do palco, que canta, dança... Incrível!
Muito além do que muitos pensam: que travesti é só prostituição...
Exatamente. Elas são grandes estrelas do teatro de revista brasileiro. Contam histórias maravilhosas daqui e de outros países, são talentosíssimas. O comportamento delas foi –e é – um avanço para as travestis de hoje e para muitas mulheres, por causa do silicone, da feminilidade, dos hormônios. Eu fiquei encantada.
Você pretende abrir um bar no centro do Rio de Janeiro, que deve ser inaugurado no começo de 2011. Já tem nome? Qual foi o motivo dessa criação?
O nome é Maria Louca e fica lado do Teatro Rival, que é um teatro da minha família, foi do meu avô, está com a minha mãe e no futuro será meu. O bar é um anexo dele, será um lugar para se divertir...
Então curte sair a noite...
Eu gosto. Prefiro ir a shows, e vou a muitos. Saio bastante. Adoro dançar, mas não sou muito fã de música eletrônica.
Você é porta-estandarte do Cordão da Bola Preta (bloco famoso de carnaval no Rio de Janeiro). Você gosta de carnaval?
Sou viciada nos blocos, em carnaval de rua, principalmente o do Rio. Acho esse o melhor feriado que existe. Minha mãe é uma foliã de carteirinha e sempre me arrastou com ela. Desde criança, tenho o hábito de ir a vários blocos. Acho que carnaval é ficar feliz, curtir com os amigos. Penso no carnaval o ano inteiro.
Você é uma atriz politizada, acompanhando suas opiniões. Vai votar em quem para presidente?
Na Marina Silva, pode escrever. Mas eu acho que, apesar da internet e dessa enxurrada de informações, a geração nova não tem quem a represente. Parece que ficou uma coisa chata falar de política, mas não é. Tem de ter alguém que fale, cobre, denuncie. Uma lei que garantia o direito de adoção a homossexuais não foi aprovada no Senado, por exemplo. E isso não é legal nos dias de hoje e no Brasil. Tem de ir para frente, senão volta para trás. Precisamos ficar bem espertos, porque senão o mundo fica chato.
Para viver Agostina, em Passione, inspirou-se em alguém?
Gravamos na Itália e, claro, observar os italianos faz parte. Mas um filme me chamou a atenção – e eu o adorei – na composição da personagem. Chama-se Girassóis da Rússia (Vittorio de Sica, 1970), com a Sophia Loren e o Marcello Mastroianni. Excelente produção!
E quais atores a emocionam hoje?
Tem tantos. O Selton Mello, a Laura Cardoso é espetacular, dos estrangeiros eu gosto do Sean Penn, do Javier Barden. Fora dos palcos e do cinema, gosto muito do Caetano Veloso.
É ligada à moda?
Eu adoro moda. E moda está muito além de ser uma coisa fútil, muitas pessoas acham isso, mas não é. Muitos estilistas são artistas, e eu adoro o processo da criação da roupa, o que ela diz, quem vai vesti-la, e adaptá-la ao seu estilo de viver. Você pode libertar-se por meio daquilo que veste.
Então você gosta de comprar roupas...
Compro muita coisa em brechós, peças vintage que misturo a outras novas. Olho tudo, vou a liquidações, mas não sou enlouquecida pelo consumo.
No final de 2009, você concluiu as filmagens de Estamos Juntos, de Toni Venturi, estrelado também por Cauã Reymond (que faz um homossexual). Como foi interpretar a Carmen, uma médica residente em hospital público e que enfrenta uma grave doença?
Foi muito bom e difícil. A Carmen é uma jovem normal que se depara com uma doença de uma forma inesperada, e repensa a sua vida a partir disso. A questão do filme não é a doença, mas como ela transforma a vida dessa médica. É um filme que fala sobre vida.
Quais são seus planos depois de Passione?
Além de Estamos Juntos, de Toni Venturi, e Boca do Lixo, de Flávio Frederico, que devem estrear nos próximos meses, há ainda um projeto muito legal chamado Love Film Festival, no qual a história é sobre encontros amorosos em festivais de cinema. Eu contraceno com o ator colombiano Manolo Cardona, e o legal é que a gente vai filmar em diversos festivais de cinema pelo mundo, e dá pra improvisar bastante.
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